Museu Digital da História de

Nova Serrana e da Indústria Calçadista Local

O projeto Entre solas e sonhos: A indústria que transforma vidas é um documentário que mergulha na relação profunda entre Nova Serrana e a indústria do calçado.  Um trabalho que move a economia, molda identidades e atravessa gerações.

Museu Digital da História de Nova Serrana e da Indústria Calçadista Local
O projeto Entre solas e sonhos: A indústria que transforma vidas é um documentário que mergulha na relação profunda entre Nova Serrana e a indústria do calçado. Um trabalho que move a economia, molda identidades e atravessa gerações.

Das Minas ao Arraial:

O Nascimento de Nova Serrana

O lugarejo que viria a ser Nova Serrana surgiu durante o século XVIII, nos primeiros tempos da colonização das Minas Gerais, época em que aventureiros de todas as regiões da América Portuguesa e reinóis buscavam novas minas de metais preciosos. Foi nesse contexto que nasceu o “Cercado”, inicialmente uma paragem que contava apenas com um curral e uma hospedaria para viajantes e, mais tarde, ao longo do século XIX, viria a se constituir um arraial.

O lugarejo que viria a ser Nova Serrana surgiu durante o século XVIII, nos primeiros tempos da colonização das Minas Gerais, época em que aventureiros de todas as regiões da América Portuguesa e reinóis buscavam novas minas de metais preciosos. Foi nesse contexto que nasceu o “Cercado”, inicialmente uma paragem que contava apenas com um curral e uma hospedaria para viajantes e, mais tarde, ao longo do século XIX, viria a se constituir um arraial.

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Praça da Matriz - 1930

Localizada na região do alto São Francisco, Centro Oeste de Minas Gerais, Nova Serrana localiza-se na região que outrora correspondia aos sertões da Capitania de Minas Gerais. A busca do ouro, intimamente ligada a importantes Vilas do período colonial como Ouro Preto, Diamantina, Sabará, São João Del Rei, Pitangui, dentre outras, se tornaram centros urbanos importantes. Nova Serrana (Cercado) pertencia ao Termo de Pitangui, e apesar de relativa proximidade a um dos mais importantes centros produtores de ouro da capitania, o Cercado pertencia aos “Sertões das Minas Gerais”, ou seja, terras cuja importância residia em abastecer os centros urbanos mais salientes com víveres e outros gêneros.

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Rua Frei Anselmo - 1930

A região do Cercado era repleta de índios “bravos”, os Cataguases, como apontam os achados em cerâmica (igaçabas, panelas e/ou vasos) entre outros artefatos. A nação dos Cataguases ocupava desde a região sul e Oeste de Minas e estava entre as que mais aterrorizavam os primeiros habitantes. É por isso que em várias localidades desta região se encontra uma relação muito grande com o termo “Conquista”, “Fazenda da Conquista”, “Ribeirão Conquista” e outras nomeações referentes a este fato. Mais tarde, em meados do século XVIII a região do Cercado foi tomada por escravos fugitivos (quilombolas). Existiram vários quilombos na região em que hoje se localiza Nova Serrana e sua vizinhança, como o Quilombo da Saúde, chamado também de Quilombo do Lambari, ou ainda, Quilombo dos Coqueiros. “Estes núcleos de escravos fugitivos situavam-se, aproximadamente, onde hoje abrange as regiões de Cana do Reino e Engenho, e chegava até a Cachoeira ou Fazenda dos Crioulos. (..) Não há registro explícito sobre o fim desses quilombos no território de Nova Serrana nem tampouco sobre os seus autores.” Eis um dos relatos, que atestam a existência destes Quilombos na região de Nova Serrana: em 1809, por ocasião do falecimento de Laurinda Maria Clara, a segunda das três esposas de José Correia de Melo, no seu inventário de partilha constavam terras situadas no Mato Dentro e na Barra do Macuco. A fazenda Mato Dentro era assim descrita: “...Huma Fazenda de Agricultura e Campos denominada matto dentro que parte com o Quilombo com Domingos da Costa ou seos erdeiros e com Manoel Antônio Teixeira e com a Boa Vista com suas casas de vivendas cobertas de telhas que sendo vistas e examinadas por elles avaliadores…”.  Esse Quilombo tomava terras dos atuais municípios de Leandro Ferreira, Conceição do Pará e Nova Serrana. Mais tarde havia, na região, fazendas destinadas à agricultura e com o trabalho escravo largamente explorado na cultura de algodão, mandioca, fumo e cana de açúcar, bem como nos engenhos de açúcar e nas fábricas de polvilho e de farinha de mandioca. Da mesma forma, se encontram ruínas de fazendas de engenho e senzalas, no distrito de Boa Vista de Minas.

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Casarão do Cipinho - 1930

O “Cercado” localizava-se no caminho que ligava São Paulo, na direção das regiões auríferas do Centro de Minas Gerais e às Minas de Goiás. O “Cercado” foi um ponto de pousada de viajantes, percorrendo estradas no contrabando de ouro. Como no lugar existia um cercado para a guarda de animais dos viajantes, o povoado ficou conhecido com o nome de “Cercado”. “À época dos primeiros descobertos auríferos nas Minas Gerais, o vale do Rio São Francisco se achava povoado e repleto de ‘currais’, denominação das fazendas dedicadas à criação de gado, dentre as quais muitas pertencentes à Companhia de Jesus”, ao longo das trilhas abertas, surgiram as primeiras hospedarias, fazendas e povoados. Nesta época, “núcleos começaram a pontilhar-se pela região [das Minas], e muito rapidamente se multiplicaram, praticamente por quantas ‘catas’ ou minerações que se instalavam”. Após a abertura de novos caminhos que ligassem o sul da capitania de Minas às minas de Pitangui e Paracatu, “que se deu a fundação da Fazenda Barra Grande do Cercado, embrião do Distrito do ‘Cercado’, criada em 1869.”

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Praça Mario Ernesto - 1940

As sapatarias registradas começaram a existir por volta de 1941, quando o senhor Geny José Ferreira teve como mestre, Venerando Viana, exímio sapateiro e proprietário da sapataria Vitória, em Bom Despacho, onde fazia botinas para a polícia. Uma vez que não podia mais ficar no povoado do Cercado, devido alguns conflitos com a família, ele foi para Bom Despacho tentar uma vida melhor. “A produção inicial da Sapataria de Geny, registrada com o nome de Fábrica de Calçados Oeste, era pequena e fabricava cerca de vinte pares de botinas por dia, de forma muito artesanal (...)” Antes, fazia tudo à mão, depois comprou uma máquina, mas ainda usava pregos e grude para fabricar suas botinas. Este contato trazia a primeira indústria de calçados para o município e deixava outros sapateiros importantes para a cidade, com o José Pinto Firmino (‘Pintinho’), José Silva Almeida (‘Zezito’), Valdomiro Amaral (‘Miro’), Alvimar Coelho, Sebastião Fábio (‘Pedro Rosa’) e Romeu Coelho. Fazer sapato não era muito fácil, mesmo tendo curtumes na localidade era necessário comprar materiais em Belo Horizonte, faltava luz elétrica, tudo era artesanal, pregado à mão com tachinha, “ia pregando, aparando e dando acabamento, modelando a botina”, lixava a botina com cacos de vidros e queimava as pontas das linhas na lamparina”.

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Os Pioneiros do Calçado - 1941

O progresso do arraial não foi incentivado pelas lavras de ouro e sim pela cultura do algodão e criação de gado, portanto, produtor e fornecedor de couro, incrementada em grande parte por três famílias de portugueses que aqui se radicaram: os “Pinto da Fonseca”, ”Rodrigues de Carvalho” e os “Soares Silva”. Mais tarde a região foi denominada como Distrito de “Cercado de Pitangui”. Os ranchos desempenhavam um papel importante à beira das estradas e eram importantes na economia das regiões transitadas por tropeiros e viajantes. Era nesses lugares que as tropas se abasteciam para seguir viagem, compravam milho para as mulas, se alimentavam e descansavam nessas paradas. Era nesses arredores que se encontrava também a venda, um comércio que abastecia os moradores da região. Por ali se encontravam diversas mercadorias como “a cachaça, o sal, o açúcar, o feijão a carne seca, até ferraduras, fumo em corda, armas de fogo, cabeças de alho e livro de missa.”

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Rua Frei Anselmo - 1950

Outro fator importante para a formação do povoado do “Cercado” foi o conserto de selas, através do trabalho com o couro iniciou-se o artesanato para o conserto e fabricação de calçado. Legítimos e pioneiros possuidores do solo “cercadense” foram, sem dúvida, os valentes construtores das vias que permitiram o acesso aos sertões bravios, e que a duras penas, levantaram seus primeiros ranchos, produziram e povoaram o lugar. Os primeiros artesãos do couro apareceram na região após a segunda geração dos primeiros povoadores. Nesta época, quase todas as pessoas andavam descalças, o que ocorreu até mesmo nos primeiros tempos da emancipação de Nova Serrana. Um Senhor chamado João Soares Vieira, iniciou o ramo de sapataria fabricando botas. Comprou uma ‘banca’ completa: uma mesa, sovela, torquês, martelo, avental, lamparina, etc... Existiu um outro sapateiro, morador do Cercado, por volta de 1844, chamado Antônio Ferreira de Carvalho. Foi ele o responsável pela confecção de botas durante muitos anos. O sapateiro Antônio era também seleiro e, ao que tudo indica, era um escultor, pois cabia a ele confeccionar as formas de madeira adequadas para os pés do cliente. Jacinto Martins Vieira, que era seu cliente, usava a bota chamada, na época, “cano canhão”, com o cano comprido, terminando próximo aos joelhos com uma dobra para o exterior (...). A fabricação de botas continuou por muito tempo, até a chegada da confecção de sapatos.

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Loja Comercial Barateza - 1950

Todo esse crescimento das primeiras manufaturas de calçados coincidiu com a emancipação política de Nova Serrana. As primeiras indústrias surgiram com características estritamente domésticas, onde a própria família assumia todo o serviço. O couro era produzido no município e mais tarde era necessário buscar insumos em Belo Horizonte. As fábricas, em sua simplicidade, produziam pequenas quantidades de calçados e que atendiam apenas ao mercado da região de Minas Gerais.

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Casa do Geny Ferreira - 1950

No ano de 1954, o Distrito foi elevado à categoria de cidade, tendo a instalação ocorrida em 01 de janeiro de 1954, nas dependências do Grupo Escolar Major Agenor, com participação popular e com a presença de autoridades como Pedro Martins do Espírito Santo - Juiz de Paz, Dr. Paulo Campos Guimarães - deputado estadual, Antero Rocha - Prefeito Municipal de Pitangui, Dr. Sebastião Guimarães - Prefeito Municipal de Divinópolis, Dr. Gumercindo Gomes Guimarães - advogado em Pitangui e o Pe. Antônio  Pontelo - Pároco de Pitangui. Esse foi, sem dúvida, um importante marco para o desenvolvimento da cidade, fruto da ação das forças políticas locais, muitas das quais ligadas aos pioneiros da produção de calçados. O nome da cidade que nascia: Nova Serrana é uma homenagem à cidade de Pitangui, antes conhecida na região como Velha Serrana.

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1ª Igreja do Cercado - 1954

Após a emancipação política, a vida começava a mudar, ainda que timidamente. Com o crescimento urbano e populacional mudaram-se também os hábitos, as estratégias políticas, as conquistas de infraestrutura e a forma de se ver a cidade.

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Enchente - 1980

A partir da emancipação política, o crescimento de Nova Serrana passou a ocorrer de forma mais acelerada e contínua. A consolidação da indústria calçadista como principal atividade econômica do município transformou profundamente sua dinâmica urbana e social. A cidade deixou de ser um pequeno núcleo com relações sociais marcadas pela proximidade e pelo ritmo lento da vida rural e passou a assumir características típicas de centros urbanos em expansão.

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Vista Panoramica da Cidade - 1980

Esse processo esteve diretamente ligado à intensificação dos fluxos migratórios. A partir da segunda metade do século XX, sobretudo entre as décadas de 1970 e 1990, Nova Serrana passou a atrair trabalhadores de diversas regiões de Minas Gerais e de outros estados brasileiros, impulsionados pela oferta de emprego nas fábricas de calçados. Esse intenso movimento migratório pode ser comprovado pelos dados populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que evidenciam o crescimento acelerado de Nova Serrana nas últimas décadas. Em 1980, o município possuía pouco mais de nove mil habitantes, número que saltou para aproximadamente 69 mil no ano 2000, segundo o Censo Demográfico. Já no Censo de 2010, a população registrada era de 73.699 habitantes, indicando a manutenção de uma trajetória ascendente, ainda que já em um contexto urbano mais consolidado. O crescimento mais expressivo, contudo, ocorre no período posterior a 2010. De acordo com os resultados do Censo Demográfico de 2022, Nova Serrana atingiu uma população de 105.552 habitantes, o que representa um aumento de aproximadamente 43% em relação ao censo anterior. Trata-se de uma das maiores taxas de crescimento proporcional entre os municípios mineiros nesse intervalo, colocando Nova Serrana entre as cidades que mais cresceram em Minas Gerais no período analisado. As estimativas populacionais mais recentes do IBGE reforçam a continuidade desse processo. Em 2018, o município já se aproximava da marca de 100 mil habitantes, e, nas estimativas oficiais divulgadas para 2025, Nova Serrana ultrapassa 114 mil moradores. Esses números confirmam não apenas o crescimento absoluto da população, mas também a permanência de uma dinâmica migratória ativa, sustentada sobretudo pela oferta de empregos no setor industrial e pela ampliação do comércio e dos serviços.

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Inauguração do Conjunto Habitacional Horizontina Angelica - Chegada Governador a Cidade - 1980

Esse avanço demográfico acelerado diferencia Nova Serrana de grande parte dos municípios mineiros, muitos dos quais apresentam crescimento lento ou mesmo estagnação populacional. No caso serranense, a expansão populacional ocorre de forma contínua e concentrada em poucas décadas, reforçando o caráter recente da cidade enquanto centro urbano de médio porte e evidenciando os impactos diretos da economia calçadista na reorganização do território. Assim, os dados do IBGE corroboram a ideia de que o crescimento urbano de Nova Serrana está diretamente associado à intensificação dos fluxos migratórios e ao fortalecimento de sua base produtiva. O aumento populacional observado ao longo das últimas décadas ajuda a explicar a rápida expansão da malha urbana, a abertura de novos bairros e loteamentos e as pressões sobre a infraestrutura urbana, elementos fundamentais para a compreensão da evolução espacial do município.

O rápido crescimento demográfico ocorreu de forma mais intensa do que a capacidade de planejamento urbano do poder público. Como consequência, a expansão territorial da cidade deu-se, em muitos casos, de maneira desordenada, com a abertura de novos loteamentos e ocupações em áreas periféricas, frequentemente distantes do centro urbano e com infraestrutura limitada. Esse padrão de crescimento contribuiu para o surgimento de desigualdades socioespaciais, perceptíveis na distribuição dos serviços públicos, no acesso à moradia adequada e na mobilidade urbana. A indústria calçadista, ao mesmo tempo em que promoveu desenvolvimento econômico e geração de renda, também passou a exercer forte influência sobre a organização do espaço urbano. A localização de fábricas, galpões industriais e áreas destinadas ao comércio e à logística passou a moldar a cidade, estimulando a valorização de determinadas áreas e a expansão de bairros populares em seu entorno. Assim, o espaço urbano de Nova Serrana passou a refletir diretamente as demandas e oscilações do setor produtivo.

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Construção da Trincheira - 2005

Após a emancipação política, a vida começava a mudar, ainda que timidamente. Com o crescimento urbano e populacional mudaram-se também os hábitos, as estratégias políticas, as conquistas de infraestrutura e a forma de se ver a cidade.

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Inaug. Fartura - 2005

Reviva os momentos que marcaram a história da nossa cidade. Imagens, registros e memórias preservadas ao longo do tempo. Acesse a galeria completa e explore cada detalhe.

Memórias Visuais de Nova Serrana